Entrevistamos Bruno van Enck, da Barbearia Corleone (prestes a abrir filial na loja da Oficina Reserva, no Rio), sobre comércio, contato com os clientes e o impacto na vida dos funcionários.

Bruno van Enck, 34 anos, traz o comércio praticamente gravado no DNA. Da quarta geração de proprietários de restaurantes (quando nasceu, seu pai já comandava a Cervejaria Munique, na zona norte de São Paulo), ele começou a trabalhar aos 12. Quando decidiu abrir o seu próprio negócio, manteve-se no comércio, mas desgarrando do segmento gastronômico e da tradição familiar.

Van Enck é dono da Corleone, barbearia em estilo vintage com duas unidades paulistanas e carta de cervejas artesanais para cativar a freguesia. No início, diz que ninguém apostava no seu sonho, só ele; hoje, emprega 50 barbeiros e pretende sextuplicar o número nos próximos cinco anos. Agora, Bruno inaugura uma nova unidade da Corleone dentro da Oficina, marca do Grupo Reserva prestes a ganhar sua loja física no Shopping Leblon, no Rio de Janeiro.

O empresário foi um dos convidados a estrelar a campanha de lançamento da loja. Enquanto era clicado no estúdio do fotógrafo Maurício Nahas, na capital paulista, deu a seguinte entrevista à editora-chefe do Draft, Phydia de Athayde:

Por que você acha que está nessa campanha?

Porque, há alguns anos, venho tentando fazer um país melhor, não no sentido da caridade, mas no de tentar preparar melhor as pessoas para o mundo tão concorrido de hoje. Só a formação acadêmica não funciona, então tento passar um pouco de coragem e experiências para que tenhamos um mercado mais justo.

Você tem a preocupação de estar próximo do negócio, o que é uma visão de liderança quase vintage, assim como resgatar o conceito de barbearia. De onde vem isso?

Sou da quarta geração de donos de restaurante da minha família, e o “desertor da pátria”. Nasci dentro do restaurante do meu pai, que funciona há 34 anos no mesmo lugar. Essa é a minha base. No comércio, um dia perdido você não recupera. Recentemente, investi em tecnologia para que não precisar ficar no escritório. Para mim, tem muito mais valor ficar no sofá da barbearia recebendo cliente, tratando-o pelo nome, perguntando como está a família, recebendo crítica… A troca entre as pessoas jamais será substituída por uma máquina.

E tem algum líder de negócios em quem você se espelha?

Meu pai tem 24 anos de diferença para mim, mas nossas ideias ainda batem muito, então consigo conversar muito com ele sobre negócios. É meu maior ídolo, a pessoa em quem mais me inspiro. A certa altura, tivemos olhares diferentes sobre a empresa. Ele tem o mesmo ponto há 34 anos, e eu queria ter uma marca forte, que poderia ter poucos ou muitos pontos comerciais, como, por exemplo, a Shake Shack [hamburgueria], onde as pessoas tiram foto, querem mostrar que estão comendo lá. Esse foi o único ponto em que divergimos. Eu e o Rony [Meisler] também somos muito amigos, ele é um ótimo conselheiro. Tem ainda o Romero Rodrigues, que fundou o Buscapé, e muita gente além deles em que eu me espelho todos os dias.

O que é ser empreendedor no Brasil?

Sempre que se fala em fazer negócio no Brasil, já se apontam as dificuldades. Quando falam “se eu pagar todos os impostos, não sobrevivo”, eu respondo: “então fecha as portas, vende enquanto é tempo, porque você não está fazendo um bom papel”. Não cabe julgar se o imposto é certo ou errado. Pode ser injusto, mas a lei diz que temos que pagar, então, se não quiser participar desse jogo, não tenha uma empresa. Mas, em toda crise, há sempre alguém chora – e alguém que vende lenço. Abri barbearias no auge da crise de 2014. O termo “empreendedorismo”, na minha opinião, está vulgarizado. Empreender é tomar riscos. Infelizmente, no Brasil os empresários são vistos de maneira pejorativa, apesar de pagar muitos impostos, movimentar a economia, gerar emprego. Por isso acho que ficou bonito se auto denominar “empreendedor”.

Que situações difíceis você reverteu de maneira inesperada? Limões que você transformou em limonada…?

A primeira grande dificuldade foi querer fazer algo que não existia. Ninguém acreditou. Meu pai, que era meu melhor amigo, acho que fingiu que acreditava [risos]. Mas eu acreditei muito no que estava fazendo. Duas semanas antes de abrir minha primeira barbearia, o dinheiro acabou.

Eu não queria pedir dinheiro para meu pai. Era no meio da Copa, época em que ninguém queria trabalhar, e precisei de R$ 25 mil. Limpei o [limite do] cheque especial da conta pessoa-física e da conta jurídica de uma empresa que eu tinha, de distribuição de chope para bares e restaurantes.

Quitei o cheque especial em menos de um mês! Foi o investimento mais barato que já fiz. Então, quando eu transformei limão em limonada? Quando ninguém acreditou em mim e eu peguei aquele dinheiro que o mundo achava que seria o mais caro e perigoso que tinha para fazer negócio.

Tem alguma frase que te inspire?

“Na vida só existe uma profissão: a de vendedor”. Você pode ser o melhor na sua área, mas se não souber se vender, as pessoas não vão chegar até você. Tudo é troca. Se você não for um bom vendedor, pode ser o melhor profissional na sua área, mesmo assim não vai ter sucesso.

E algum conselho que gostaria de ter ouvido antes?

Trabalho no comércio desde os 12 anos, tenho larga experiência e já me aconteceu de tudo. Aprendi com os erros, mas, se pudesse dar um conselho, diria: “corram seus riscos”. Falo com muita gente sonhadora, que tem ideias maravilhosas, mas e na hora H? Vende seu carro? Pega suas economias? Arrisca? Não. Precisa achar 200 mil sócios-investidores e, no fim, teve todas as ideias brilhantes da empresa, mas ficou só com 15% porque não quis vender um carro, correr um risco. O empreendedor no Brasil precisa de coragem, não de enxergar o glamour. Pouca gente chega lá em cima, então é isso: coragem.

O que o país perderia se o seu negócio deixasse de existir?

Perderia a chance de dar oportunidade a pessoas que não tiveram as melhores oportunidades nos estudos. A atividade manual faz com que aquele monte de estudo possa ser anulado. Alguns barbeiros começaram comigo há três anos, com três cadeiras; hoje são mais de 50 profissionais. Espero que esse número, nos próximos cinco anos, seja seis vezes maior. Fico feliz de ver que barbeiros que ganhavam uma mixaria hoje são de classe média alta.

Você já pensou em sair do Brasil, viver e empreender lá fora?

Já morei fora do Brasil em duas ocasiões. Sinto falta de pessoas queridas, não quero ficar longe delas. A relação entre as pessoas é sempre diferente. Hoje o Brasil tem 7 mil estudantes nos EUA, que terão melhores oportunidades lá fora, então eu digo: se as universidades, o nível educacional, são tão melhores do que aqui, vamos incentivar esse pessoal a voltar.

Estamos vivendo um momento político que me emociona, que mostra que vou ver uma luz no fim do túnel e que talvez minha irmã, de 15 anos, já viva num país melhor. Temos um monte de problema de educação de base, segurança, mas a economia no Brasil tem um potencial maravilhoso se for mais bem organizada por pessoas que possam fazer trocas melhores.

Em que aspecto é uma sorte ser brasileiro? E quando é um revés?

O calor humano, a receptividade com pessoas estranhas, são maravilhosos. Nunca vivi isso fora do Brasil. Nosso problema, infelizmente, é a “república dos coitadinhos” que impera no país. Acho que o viés de se fazer de coitadinho o tempo todo é muito ruim porque esbarra, também, na nossa imagem lá fora, de corrupção, insegurança. A gente sempre se desmerece.

Nas empresas, fala-se cada vez mais em abrir espaço à colaboração entre os funcionários. Ao mesmo tempo, em alguns momentos é preciso que a hierarquia predomine. Como você exerce o seu poder?

Minha força motriz é o trabalho manual. Não consigo substituí-los da noite para o dia. Acho que liderar uma equipe aqui tem um caráter diferente de alguém com uma navalha no pescoço de um cliente. Esse cara não pode fazer aquela separação horrorosa entre o empresário, o patrão e o empregado. Eu não corto cabelo: eles cortam. Então, não existe uma figura do Bruno liderando.

Quando sento e converso com eles, eu falo: “vocês têm que entregar o melhor corte de cabelo que puderem. Eu vou encher de gente essa barbearia e vocês têm que fazer com que elas voltem pela qualidade do seu corte”. São mais de 300 pessoas que estão comigo na operação todo dia. É claro que às vezes tem alguém de ressaca, que brigou com a mulher ou está com problema financeiro. Precisamos saber lidar com isso.

No fim das contas, eu gerencio pessoas e tento passar a elas que quero vencer por mérito e não por imposição. Todo mundo que trabalha comigo entende bem que a meritocracia funciona de maneira praticamente absoluta comigo: se você realmente fez por merecer, ótimo – está nas suas mãos e o mérito é seu.

Pode recomendar três livros?

O primeiro é O Poder do Hábito (Charles Duhigg), maravilhoso, que me ajudou a organizar minha vida e minha saúde física. Todos os dias de manhã tomo o café no mesmo horário, faço sempre a mesma coisa, consigo planejar meu dia. Tem também A Sutil Arte de Ligar o Foda-se (Mark Manson) e Mindset: A Nova Psicologia do Sucesso (Carol Dweck). São os três que mais me trouxeram para a realidade que eu vivo hoje.

Além do envolvimento na transformação da vida dos seus funcionários, você tem alguma atuação social?

Fui voluntário da AACD por muitos anos. Ajudava uma tia, enfermeira, e peguei gosto por aquilo. Mas nunca curti assistencialismo. Gostava de ajudar quem realmente precisava. Criei um carinho por [pacientes com] Síndrome de Down. Trabalhei muito tempo lá com eles, mas chega uma hora em que você tem que cuidar dos seus amigos, da sua família.

O melhor do sucesso, para mim, é conseguir ter vida pessoal. Eu queria fazer algo mais que não fosse só cuidar de quem trabalhava comigo. Os barbeiros um dia me procuraram para dizer que queriam fazer algum projeto comigo para ajudar as pessoas, então, pensei: quem faz quimioterapia não tem que raspar a cabeça? Então, eu monto uma barbearia lá [em centros oncológicos], e eles são atendidos de maneira digna, como se fossem à barbearia cortar o cabelo.

Não levamos celular para registrar esse momento. Sempre que faço algo que poderíamos chamar de caridade, e nem sei se é o nome que eu empregaria, [deixamos] celulares desligados. Assistencialismo, eu não faço. Muitas pessoas me procuram na rede social e eu ofereço oportunidade de trabalho, mesmo que seja passageira. Dessa maneira, consigo retribuir um pouco do que eu tenho.

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